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quinta-feira, 19 de maio de 2011

O Brasil, Mediador entre a Europa e o Trópico

No post anterior, citei um artigo de Gilberto Freyre sobre as matas. Este outro, que transcrevo na íntegra (veja este e outros textos na Biblioteca Virtual GB), fala sobre o protagonismo que o Brasil poderia desempenhar no mundo, enquanto mediador entre os trópicos e a Europa. É um artigo de 50 anos, mas não poderia ser mais atual. O Brasil emergente, destaque entre os BRICs, que reivindica assento no Conselho de Segurança da ONU e papel de liderança na América Latina, que articula relações mais intensas Sul-Sul e é cada vez mais visto como o país do presente e não do futuro, é este mesmo país que Freyre via no início dos anos 60. Cabe à nossa geração concretizar essa visão tão sóbria e tão vanguardista.





"A um brasileiro apercebido dos seus deveres de solidariedade para com os povos que pertencem ao seu mesmo tipo de civilização específica, não podem deixar de interessar aquelas populações como a de Goa, a de Moçambique, a de Angola, a da Guiné, que olham para o Brasil, em geral, e para São Paulo, em particular, como para uma evidência irrecusável de que talvez esteja em nosso tipo de civilização a solução mais adequada aos problemas de encontro de europeus com não-europeus em regiões tropicais e quase tropicais. Donde a necessidade de cada vez mais passarmos, os brasileiros, a pensar, a sentir e a agir como um povo em grande parte responsável pelo destino de outros povos, separados de nós por grandes distâncias físicas porém próximos de nós pelas formas de cultura; e cujo futuro, como cultura em desenvolvimento, talvez seja inseparável do futuro brasileiro.
Em livro recente e ricamente sugestivo, prejudicado menos que o do Professor Jacques Lambert pelo gôsto excessivo de generalização, mas ainda assim um tanto incontinente em certas de suas generalizações, um sociólogo francês, que todos os estudiosos brasileiros de assuntos sociológicos estimam e admiram - o Professor Roger Bastide - reconhece ter o Brasil se tornado potência demasiado grande para limitar seu destino à América do Sul. É uma nação que tem, a seu ver, papel internacional a desempenhar no Mundo de hoje. E refere-se, a êsse propósito, à idéia de uma federação de países de língua portuguêsa, infelizmente sem considerar, como devia ter considerado, a base sociológica para uma tal federação de evidente importância política, oferecida por aquêles seus colegas brasileiros que vêm sugerindo a especificidade de uma civilização dinâmicamente luso-tropical: civilização em desenvolvimento e não estabilizada. Idéia a que opõe a de uma "missão mais bela"- palavras suas - para o Brasil que seria a de pertencer o mesmo Brasil, de modo evidentemente mais efetivo, a um mundo latino que, a seu ver, deve erguer-se entre o mundo anglo-saxônico e o mundo eslavo, para salvar valores hoje ameaçados. A civilização latina estaria na Europa sob o perigo de imobilizar-se em formas arcaicas. O Brasil poderia concorrer para o seu revigoramento. E, desempenhando êsse papel, seria a grande nação mediadora entre a América, a África e a Europa.
Não vejo por que essa missão não possa vir a ser desempenhada pelo Brasil. Em certo sentido, e à revelia de políticos brasileiros ainda arcaicos em seus métodos de fazer política, é uma missão que já está sendo desempenhada pela cultura brasileira através dos seus Villa-Lobos, dos seus arquitetos modernos, dos seus pintores atuais, de alguns dos seus modernos pensadores e cientistas sociais.
Mas para cumprir essa missão, no melhor sentido da palavra, platônica, pensam alguns sociólogos brasileiros caber ao Brasil, agir, antes, aristotèlicamente, isto é, pragmàticamente; e articular-se com os demais povos hispano-tropicais, em geral, e luso-tropicias, em particular - povos que já não são particularmente latinos porém vêm juntando a uma herança multieuropéia valores de culturas tropicais, ameríndias, africanas e asianas, através de métodos especificamente hispânicos de interpenetração - numa possível comunidade federada. Assim, aquela sua mediação representará para o homem moderno alguma coisa mais do que a experiência brasileira: um conjunto de experiências da parte de portadores de uma cultura da mesma origem européia, que em vez de pretenderem guardar pura e apolínea essa cultura, misturaram-se a culturas não-européias, criando novas culturas que se vêm adaptando aos trópicos sem sacrifício de valores apurados pela experiência européia.
Dessas experiências, a experiência brasileira talvez seja a mais arrojada: a vanguarda. Mas não a única. Melhor é para o homem moderno receber os benefícios do conjunto de tais experiências que, mais do que uma mediação entre a Europa, a América e a África, podem representar uma mediação mais vasta e mais plástica: entre a Europa e o Trópico. E o grande mediador entre a Europa e o Trópico tem sido, não um vago latino, mas o hispano. Principalmente o português, a ser continuado num futuro já presente, pelo brasileiro."


Fonte: FREYRE, Gilberto. O Brasil, mediador entre a Europa e o trópico. O Cruzeiro. Rio de Janeiro, 22 jul. 1961.

Palavras de Gilberto Freyre sobre nossas florestas

Gilberto Freyre, grande brasileiro! Esses dias descobri a biblioteca virtual de suas obras, onde podem ser encontrados seus artigos, palestras e livros (entre eles o lendário "Casa Grande & Senzala").
Alguns dos artigos me chamaram muito a atenção. Ele era um tremendo pensador do Brasil, e foi um dos primeiros a ver nosso país como líder dos trópicos. Inovou também em conceitos sobre a arquitetura brasileira, a política e suas necessidades de modernização, as relações sociais e a valorização do negro, entre outros temas. 

Gostaria de destacar, porém, um texto que estava décadas à frente de seu tempo, escrito em 1935. O original você encontra aqui. Nesse texto ele fala do caso de Fordlândia (concessão do governo brasileiro à Ford de vastas porções de terras amazônicas, com o objetivo de produção de borracha natural em larga escala). Mas veja as considerações que ele faz sobre a necessidade de preservação da floresta:

                  "(...)   
             O americano Ray Nash, depois de estudar o problema das florestas no Brasil, fez a advertência mais grave que nos deixou em livro: "Brasileiros, cuidado com vossas florestas".

Essas florestas do Brasil constituem hoje a maior massa de matas tropicais da América e talvez do mundo. Mas não são eternas. Elas se esgotaram no Mediterrâneo - se não se adaptar entre nós uma política de socialização e da conservação, ou seja, na floresta bruta não o inimigo terrível da agricultura e da indústria e a ser vencido quase militarmente a machado e a fogo - "o machado civilizador", como diz Assis Chateaubriand; não a mina a explorar em proveito de duas gerações ou três, e com o sacrifício das vindouras; não o parque ideal onde exercer-se a ganancia do interesse particular em prejuizo do geral - mas alguma coisa de superior aos interesses de uma geração ou duas, de um grupo ou dois de ricaços, de um tipo único de atividade economica e agrícola.
Há areas no Brasil que desde já devem ser as que os técnicos chamam de "matas absolutas" - areas inacessiveis não só aos Fords americanos, ingleses, alemães e japoneses, com os brasileiros com os nomes nossos romanticamente indígenas: Abaetés, Caramurús, Carapebas, Ipirangas - areas que precisam de ser quanto antes nacionalisadas e socializadas, para assegurar a utilização social permanente de suas florestas. As grandes manchas de verde profundo que se alongam pelo interior do Paraná, entre São Paulo e a Bolívia e pelo litoral do Espírito Santo estendendo-se triunfalmente pela região amazônica.
(...)
A agricultura e a indústria devem ter suas fronteiras e seus limites.
Nash, que estudou o problema florestal brasileiro, depois de ter adquirido profunda experiência tropical nas Filipinas, já previa, há dez anos, que o Brasil, com suas reservas magnificas de matas, se tornasse, nestas alturas do século XX, o ponto principal de cobiça dos grandes industriais de madeira de sua terra que fatalmente se juntariam com políticos e com homens de governo da nossa. E com toda a honestidade deu o grito de alarme contra os perigos de "expansão capitalista" lembrando aos nossos homens de governo o exemplo da Índia, que ia já se saharizando, quando adotou uma política energicamente coletivista com relação as matas, sob o controle de um grande técnico: o alemão Dietrich Brandis.
(...)
Mas a verdade é que as manobras e penetrações do grande capitalismo já não podem ser interpretada conclusivamente em termos de petróleo: também em termos de quedas d'água e de matas."


FREYRE, Gilberto. As matas do Brasil. Folha do Povo. Recife, 12 Ago. 1935.



Apenas dois comentários. 
Em primeiro lugar, as "grandes manchas de verde profundo que se alongam pelo interior do Paraná, entre São Paulo e a Bolívia e pelo litoral do Espírito Santo" foram pro pau. Hoje são plantações de eucalipto, soja, milho, algodão, cana e pasto. Não sou contra essa ocupação do solo, pelo contrário, dela precisamos. Mas foi uma ocupação feita sem freios e hoje, quase 80 anos depois, vemos com tristeza que praticamente não há mais mata nativa nesses regiões. A Mata Atlântica, que se estendia do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul, agora está reduzida a 7% de sua cobertura original. 
Em segundo lugar, ele se refere a "manobras e penetrações do grande capitalismo", que na época faziam lobby para explorar nosso subsolo. Essa briga foi tão ferrenha que teve uma distensão apenas em 1953, com a criação da Petrobrás. Já a cobiça internacional por nossas matas e nossa água é um problema muito mais recente, que mesmo hoje ainda não se verifica tão profundo. Entretanto, este é um fato do século XXI: com a escassez mundial de cobertura vegetal e de água, os países que detém essas riquezas estarão em posição favorável. Bom para o Brasil.



quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Sobre a mentalidade marítima



Na Marinha, uns definem assim:

"Mentalidade Marítima de um povo pode ser entendida como a compreensão da essencial dependência do mar para a sua sobrevivência"

Outros, assim:

"Mentalidade Marítima é a convicção ou crença, individual ou coletiva, da importância do mar para uma nação e o desenvolvimento de hábitos, atitudes, comportamentos ou vontade de agir, no sentido de utilizar, de forma sustentável, as potencialidades do mar"

A segunda é mais concreta. A primeira é mais violenta, e por isso gosto mais dela.

Mas e aí: o Brasil depende ou não do mar? E o mundo?